Imagino-te sentado. As almofadas do sofá amarrotadas, húmidas da transpiração de ali estares há horas, as paredes de tinta roída e desbotada, mais tristes agora que te morreu mais um pedaço de alma.
O cinzeiro cheio em posição precária ameaça espalhar uma nuvem de cinza pela divisão, não bastasse já a nuvem de fumo que sai dos teus lábios secos.
A tua mulher deambula pela casa. Ouves gavetas a fecharem-se, as solas rasas a raspar o soalho, a água da torneira a correr, o interruptor do quarto uma e outra vez. Não sabes se já foi noite a seguir ao dia de ontem porque os estores estão fechados. Engoles a medicação de um trago só, sem relógio, sem calendário. Atiravas-te da ponte se tivesses energia de chegar até lá. Mergulhavas da janela, mas o trinco está estragado e seria uma pena sujar de sangue a calçada lá em baixo.
Já foste arrogante mas agora não és nada. 
Tiveste uma filha mas agora tens apenas uma pessoa que entreabre a porta e te chama pai.
Já tentaste recriminar-te por teres transformado a vida dos outros num inferno mas compreendeste que não vale a pena.
Passaste a vida a decepar os dedos a ti apontados e agora tens uma colecção deles em frascos. De vez em quando livras-te deles num ataque de fúria, vidros partidos por todo o lado, mas umas horas depois eles lá estão todos outra vez, inalterados e meticulosamente dispostos por data e local de origem.
Nada no mundo pode limpar a mancha que tapaste com a almofada amarrotada do sofá.

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