E a vida prossegue de forma pacata... sem sobressaltos apesar do novo ano ter chegado.
O meu sofá, que já era novo em 2008, permanece estático, indiferente a estalos de rolhas, cascatas de champanhe e uivos de alegria.
Pacientemente, abre os seus braços às minhas investidas sonolentas e abraça-me em almofadas e mantinhas quentes.
A TV murmura qualquer coisa sobre atentados e genocídios do outro lado do mundo, num sítio onde certamente não há tempo para celebrações e, concretamente, não haveria qualquer razão para que existissem: Novo ano. A mesma triste realidade.
Gostava de retocar o verniz vermelho mas não tenho paciência. De qualquer forma não consigo estar parada o tempo suficiente para que ele seque em condições. Por isso aqui fico, olhando para as abruptas transições de grená escuro, para os declives e encostas de tinta vermelha.
Por outro lado, reparo que passei do conflito armado para o verniz de unhas sem uma ponta de remorso, como se existisse uma qualquer associação pérfida entre sangue e verniz vermelho. Ou simplesmente a constatação da banalidade da morte, do massacre e do sofrimento, da pequenez de cada um de nós perante um mundo que, independentemente dos anos que passam, caminha para a desumanidade.
"Humanidade sintetiza as características partilhadas por todos os humanos, especialmente a capacidade do Homem para ser compreensivo e benevolente."
Nós, os humanos, estaremos extintos antes de desaparecermos. Deixaremos de ser humanos e passaremos a ter uma outra designação mais honesta, mais adequada à nossa natureza auto-destrutiva enquanto espécie.
E, assim, como em todos os anos, enquanto o Mundo parece caminhar para a calamidade total, cada um de nós, na sua microscópica existência, debate-se com todas as forças para ser feliz.
Do alto da minha cadeirinha falo para um gigante Universo de meia dúzia de pessoas... Sempre com a esperança de que as palavras possam mover pequenos grãos de areia ou grandes montanhas.
Parafraseando aquilo que já na minha infância parecia fazer sentido: